domingo, 20 de dezembro de 2009

Poema XXXVIII de O Guardador de Rebanhos

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao Homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural - mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...

Alberto Caeiro

O Falhanço de Copenhage

Diante de um copo meio cheio de (bom!) vinho, o pessimista diz que está meio vazio e o optimista que está meio cheio. Os governos dos países mais desenvolvidos, que têm facilmente acesso ao grande capital quando se trata de salvar o capitalismo, não o tiveram para salvar o planeta.
É verdade, o acordo não é suficiente para chegarmos a uma atmosfera segura, ou seja, com menos de 350 partes por mil de CO2

Mas lá chegaremos! O movimento mundial de milhões de cidadãos que lá querem chegar não vai parar! Exigirá do capital que sirva para salvar o planeta.
Tirando as manifestações em todas as cidades do mundo para que não começasse a guerra do Iraque, este é o primeiro sinal da globalização da opinião pública, as pessoas a pedir aos poderosos que ajam bem, em todo o mundo, ao mesmo tempo. Falhámos, é certo. Mas “o povo é quem mais ordena” e, no próximo ano, a pressão pela sobrevivencia continuará, vamos ter um Verão quente—um Inverno quente, no Hemisfério Sul! Começa em Bona, a 31 de Maio de 2010.



Aconselhava o professor Agostinho da Silva a, “das dificuldades, tirar vantagens”. Pois pode-se considerar uma vantagem o aumento da consciência global de que o sistema económico precisa de ser profundamente transformado. De que enriquecer não é o supremo desígneo deste primata de última geração que somos. Para já trata-se de tornar real o direito à sobrevivência de todos, incluindo as gerações futuras.

Só este despertar da consciência global poderá impedir os políticos eleitos de continuar a gastar os recursos disparatadamente, como o milhão de euros que a Câmara de Paredes (PSD) vai gastar a fazer um mastro de 100m para uma bandeira. As dívidas nada preocupam as Câmaras, convencidas que o que os eleitores querem é obra, betão armado. Em Santo Tirso (PS) um milhão de euros é feijões. Aliás seguem o exemplo do governo central, que anunciou recentemente que vai gastar biliões a fazer uma linha de combóio inútil. Note-se a manipulação habitual da opiniáo pública: logo depois de anunciar esses gastos inoportunos anunciou ter feito a lei que permite casamentos entre pessoas do mesmo sexo (aliás não fez mais que cumprir a Constituição, direitos iguais para todos, não pode haver discriminação por orientação sexual). Entretida a opinião pública com um assunto agendado para este momento para a entreter, ela afasta a atenção dos gastos de dinheiros públicos, assunto difícil, não somos um povo muito dado a fazer contas!
Obama não é um Messias, claro, será, quando muito, um S. João Baptista, que prepara o caminho para a grande transformação estrutural que só as pessoas poderão forçar a acontecer.
Como todos os governantes, é “governado” pelo capital, o qual, por sua vez, não é “governado” por ninguém, é ingovernável. Mas suspeito que Obama gostaria que o interesse público, pelo menos, o controlasse. Como todos os democratas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Momento decisivo para o Mundo

Sem planeta não há Santo Tirso. Copenhage é o assunto mais importante, hoje, agora!
Eis o que recebi da AVAAZ:

Caros amigos,

Incrível. Ontem a imprensa estava dizendo que Copenhague já começou errado.

Mas 24 horas depois, com milhões de assinaturas na petição, centenas de milhares de telefonemas e apelos massivos de todo o planeta, temos a chance de conseguir um acordo!

Governantes estão freneticamente fazendo em horas o que eles falharam em fazer por anos. Mas não vamos nos iludir, ainda estamos longe de um acordo que poderá impedir o aquecimento catastrófico de 2 graus e ainda há um grande risco das negociações falharem. Nós sabemos que a pressão está funcionando então vamos usar estas últimas horas para dar um empurrão final para conseguirmos um acordo pra valer, não um acordo maquiado e fraco. Assine a incrível petição de 13 milhões de nomes no link abaixo se você ainda não o fez, e encaminhe este email para todos que você conhece:

http://www.avaaz.org/po/save_copenhagen

A petição se tornou o centro de uma revolta global contra o fracasso de Copenhague. Os nomes da petição estão sento lidos por jovens que tomaram os espaços da conferência e em prédios de governos ao redor do mundo, incluindo o Departamento de Estado dos EUA e o escritório do Primeiro Ministro do Canadá.

O mais impressionante é que os próprios governantes estão apelando para as pessoas agirem. O Primeiro Ministro do Reino Unido Gordon Brown fez um apelo para 3000 membros da Avaazem uma conferência por telefone na quarta-feira, pedindo uma campanha histórica pela Internet de 48 horas de cidadãos ao redor do mundo. Ele disse que o nosso impact é fundamental. O Prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu fez um apelo em uma das 3000 vigílias organizadas pelo nosso movimento proclamando “Marchamos na África do Sul e o apartheid caiu, marchamos em Berlim e o muro caiu, marchamos em Copenhague e VAMOS conseguir um acordo pra valer”.

A história está sendo escrita em Copenhague, mas não pelos governantes e sim por nós, milhões de pessoas ao redor do mundo que estão engagados diretamente, minuto a minuto, como nunca antes, na luta para salvar o planeta. A pressão está funcionando, vamos dar tudo de nós.

http://www.avaaz.org/po/save_copenhagen

Com esperança e determinação,

Ricken, Alice, Ben, Paul, Luis, Iain, Veronique, Graziela, Pascal, Paula, Benjamin, Raj, Raluca, Taren, David, Josh e toda a equipe Avaaz


Visit msnbc.com for breaking news, world news, and news about the economy



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Assim como permitiu as técnicas que fizeram a revolução industrial, assim a Ciência permitirá as técnicas que farão a revolução ecológica em curso.
As energias "limpas", que aproveitam o Sol, o vento, as marés, estão em plena expansão.
Como sempre, os poderosos e os seus representantes, os políticos, estão atrasados. A Europa, depois de muita discussão, arranjou uns sete biliões de euros para incrementar essas energias nos países pouco desenvolvidos, para que eles não sigam o mesmo caminho que nos trouxe aqui, o das energias poluentes. É o preço da linha Porto/Lisboa do TGV (que, por sinal, dará prejuízo). A Europa, vinte e sete países, deu a esse assunto a mesma importância que um pequeno país dá a uma linha inútil.
Aconselho os leitores a ver o filme de Michael Moore, "Capitalismo, uma história de amor", enquanto este documentário está por aí. Este sistema, as bolsas de valores, o capitalismo financeiro internacional, está claramente desajustado à economia que ora começa. Qualquer ideia interessante se poderá financiar no internet, sem as bolsas de valores. Um outro mundo, democrático, mais racional e mais justo, está a nascer. Há muito existe a palavra para o que se seguirá ao capitalismo, para o que virá depois destes 250 anos iniciados com a revolução industrial. A palavra é Socialismo, mas dele só temos o nome, ainda não sabemos como funcionará. Sabemos que não será esta espantosa atribuição de recursos colectivos ao enriquecimento de alguns manipuladores financeiros. Sabemos que não será o socialismo de Stálin nem de Sócrates -- mas pouco mais sabemos!
Oxalá hoje, em Copenhage, pelo menos não façam um acordo pior que o de Quioto.

Nesta entrevista com o Presidente da Câmara de S. Francisco podemos ver a luta que se passa entre os interesses financeiros e o interesse público. Os carros eléctricos começam a ser vulgares e a independência energética da cidade está prevista para 2020. Dentro de um mês todas as iniciativas que poupem energia, como painéis fotovoltaicos vão ficar de graça para quem os instalar. Este presidente verde é a favor do TGV entre S.Francisco e Los Angeles :-) Mas estamos a falar de milhões de passageiros e de muitos milhares de voos que se evitam.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Esperança


Começou agora a Conferência de Copenhaga, em que o Mundo põe a esperança de salvar a vida no planeta da destruição que já começou.

Nestes últimos dias têm aparecido informações díspares de cientistas que põem em causa o diagnóstico: o CO2 que descarregamos na atmosfera como causador das alterações climáticas. Basta lembrar o que se passou há 40 ou 50 anos, quando, depois de cientistas ingleses terem mostrado que o hábito de fumar cigarros estava estatisticamente ligado ao cancro, apareceram artigos científicos a combater a ideia, durante 20 anos. Hoje a correlação está firmemente estabelecida, ninguém duvida que fumar provoca o cancro. E ficou provado que foram as lesadas companhias de tabaco quem lançou essa confusão "científica". Mesmo que, por absurdo, fosse inócuo lançar estes milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, que podemos fazer para evitar o aquecimento global, que se está a passar diante dos nossos olhos, senão reduzir as emissões de CO2?

Sou dos que acredita que, do sucesso desta conferencia que ora se inicia, do sucesso desta próxima semana, depende o futuro da vida na Terra. Somos muitos milhões, os que estão, em espírito, com os conferencistas, desejando o sucesso de Copenhaga!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Da importância da estética

Hoje senti a sombra do “velho abutre” (não é um arrepio, a sensação, é um desânimo pesado, escuro e frio).

Para os gregos antigos verdade e beleza eram a mesma coisa. As contradições entre as diferentes poéticas, ou seja, os diferentes processos de criar arte, são as contradições sociais, as lutas políticas, a verdadeira origem das “ideologias”.
O velho abutre, que Deus tenha, via beleza no “viver habitualmente”, rural, da Idade Média, antes do Renascimento, antes do poder da burguesia, que, por sinal, ora se começa a extinguir, neste século XXI.
A poética da dignidade humana, da carta dos direitos humanos, com que afugentámos o velho abutre, tem a ver com a liberdade como valor e com o respeito pelo outro, com o cuidado de que a nossa liberdade não vá prejudicar ninguém. Esse cuidado, manifestamente, faltou ao grupo dominante na nossa sociedade e a poética do 25 de Abril está em risco de perder para outras, daí a sombra, o seu pairar.

A noticia que iluminou isto foi a de que o vice-presidente da bancada do PS lançou a suspeita de que Manuela Ferreira Leite tenha tido acesso, três meses antes de nós, às escutas telefónicas entre José Sócrates e Armando Vara; isto por ela ter acusado, há três meses, o primeiro ministro de ter mentido no Parlamento, ao garantir que nada sabia sobre o negócio da TVI.
A liberdade de continuar as negociatas invocou os mecanismos de respeito pela liberdade, privacidade, esqueceu que foi com a verdade que a nossa poética se impôs à medieval!
Se nos não demarcarmos dos oportunistas, chamemos os bois pelos nomes, outras poéticas substituirão a nossa.

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Não tenha medo da gripe

Não posso dizer que este depoimento da ex-ministra da saúde da Finlândia, Dra. Rauni Kilde, seja "a verdade" sobre o assunto mas certamente posso aconselhar as pessoas a verem-no, antes que saia do YouTube, antes que seja censurado, embora, como já foi dito num "post" de há dois anos, hoje em dia a censura tenha sido substituída pelo dilúvio de informação falsa. A verdade não é censurada, pode ser dita, temos acesso, teoricamente, a ela. O que acontece é que se trata de procurar agulha em palheiro, a desinformação enche os nossos jornais, inunda os nossos ecrãs e esconde a verdade, que continua à vista, apenas mais difícil de encontrar, escondida no meio da palha.

Acrescento este "link", em 14 de Jan de 2010, oxalá as instituições europeias descubram a verdade.

domingo, 15 de novembro de 2009

Respeito e compaixão

Ir para lá da tolerância, apreciar o outro

A carta da compaixão pretende ir ao cerne do religioso, de todas, as religiões.
O "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" que nos ensinaram em pequenos poderá ser "trata os outros como gostarías de ser tratado".
Talvez todas as religiões tenham a compaixão como valor central. "Si non e vero e bene trovato", uma bela teoria!
Uma prática! Acreditar, primitivamente, significava amar, não tinha a conotação de tomar como verdade o que não está demonstrado, que tem, hoje, entre nós.
Mais de 17000 pessoas já afirmaram a carta.

sábado, 7 de novembro de 2009

A verdade existe (tempos de mudança IV)


Começámos a pensar, de novo, que a verdade nos possa interessar.
O relativismo, a crença de que a verdade é relativa, de que não existe, de que há "verdades" assim como há opiniões, tem sido o senso comum dos últimos anos mas há sinais de que os tempos estão a mudar.
Todas a civilizações bem sucedidas valorizaram a verdade. Não é preciso ir ao extremo oriente, onde alguém que perdesse a honra, que tivesse mentido ou faltado à palavra dada, chegava ao ponto de se suicidar, de fazer "harakiri".
Ainda no século passado, na nossa região, um burguês que não conseguisse cumprir os seus compromissos comerciais e fosse à falência podia chegar ao suicídio, incapaz de viver com a sua honra ferida. Mas não nos últimos anos, antes pelo contrário. O senso comum tem valorizado quem sabe mentir com eficácia, quem sabe roubar milhões sem ser apanhado.

A Constituição americana, anterior à Revolução Francesa e "fundadora" das democracias modernas, como a nossa, enfatizou a importância da opinião pública, sem a qual não poderia haver democracia.
E pôs os jornais, onde os assuntos se discutiam e os leitores eram também escritores, como um dos pilares da nova ordem social. Esta, como se sabe, era a ordem burguesa, a do novo grupo dominante, gente que lia o jornal. Como se sabe também, "não há direito sem força" e o novo direito era bem diferente do anterior, aplicando-se a todos os "cidadãos", enquanto o anterior era diferente para a nobreza, para o clero e para o povo, cada classe com os seus tribunais (ainda temos os tribunais militares, os militares ainda são uma classe à parte!).
Foi com a intenção de contribuir para a democracia, para a opinião pública, que apareceu este blog, tão mal sucedido no seu propósito! Nem nos blogs nem nos jornais se discutem os assuntos públicos.
Vou propor ao leitor um assunto para discussão que qualquer leitor de jornais, mesmo sem o curso dos liceus, poderá acompanhar e que me parece ser pertinente.
Face aos casos de corrupção que estão a ser investigados, fala-se, à boca cheia, de promiscuidade entre o poder económico e o poder político. Parece haver muitos casos em que as decisões políticas mais convenientes aos negócios são compradas.
Aqueles que encarregámos de gerir a os nossos interesses colectivos, em Lisboa ou nas autarquias, gerem, muitas vezes, os seus interesses pessoais, à custa dos dinheiros públicos.
Isto sempre se passou --mas numa outra escala -- e a minha tese é a de que há uma relação entre estes biliões de euros públicos desperdiçados, entre esta dívida portuguesa em aumento mais que preocupante, e o relativismo.
O relativismo é a tese de que não existe a verdade absoluta, há apenas verdades relativas. Faz parte do pensamento contemporâneo e terá aparecido quando as ciências humanas foram consideradas ciências e nos apercebemos de que as outras culturas funcionavam bem com valores diferentes dos nossos: dentro dos nossos valores, dos direitos humanos, do respeito pelo outro, tivémos que aceitar que o que é verdade numa cultura pode não ser noutra.
A verdade seria relativa. Coisas como a teoria da relatividade ou a teoria da incerteza de Heisenberg contribuíram para lançar a confusão em cidadãos que não são antropólogos de formação nem físicos teóricos.
Perdoe-me o leitor uma ilustração que parecerá uma divagação:

Nos primórdios da física moderna, enquanto os portugueses descobriam continentes e contribuíam para que aparecesse a ideia de que a verdade era para ser "descoberta" em vez de ser lida na Bíblia ou nos escritos de Aristóteles, Kepler arranjou emprego como ajudante do astrónomo mor do Império austríaco. Kepler tinha lido a tese de Copérnico de que a Terra e os planetas conhecidos (menos o nosso satélite) andavam à volta do Sol mas a "verdade" da Igreja, que dispunha da Inquisição, com fogueiras e tudo, era ainda a de que a Terra estava no centro do Universo, que à volta dela girava.
Kepler aceitou o trabalho de explicar matematicamente os movimentos retrógrados aparentes dos planetas mantendo a Terra no centro, no que passou meia dúzia de anos, sem o conseguir, claro, até que o astrónomo mor morreu e ele herdou o cargo e as anotações de anos de obsevação da posição dos planetas; tratou de aplicar a teoria heliocentrica, com órbitas circulares, a esses dados mas descobriu que havia pequenos erros: as órbitas não pareciam ser circulares, antes ovóides e escapavam a uma explicação geométrica. Mais uns anos e, graças a um trabalho de Thico Brahe, imaginou que as órbitas seriam elipses e que o Sol estaria num dos seus focos: foi experimentar e todas as posições, anotadas ao longo de tantos anos, batiam certo: era assim! Imagine-se o extase de descobrir a verdade! Há biliões de anos que era assim, a verdade existia, embora só agora fosse descoberta.
A verdade é complexa, não é aquilo que esperamos que seja, Kepler esperava uma circunferencia e achou uma elipse...mas existe!
Deixou os livros para serem publicados depois da sua morte, embora tivesse vivido no século XVI e XVII, já era um burguês, como nós, lia o jornal, não estava interessado em ser herói, em morrer às mãos da Inquisição.

No tempo de Kepler havia mentirosos, decerto, mas não eram gente "honrada", considerada. Os cardeais que combatiam o heliocentrismo eram apenas ignorantes, acreditavam na verdade revelada em vez de acreditar na verdade descoberta. Mas ninguém acreditava que houvesse várias verdades.
Face à complexidade da ciência actual (a matemática do caos, por exemplo), a verdade parece inacessível. Porém, o facto de a não conhecermos não nos permite decretar que seja inacessível, muito menos que não exista.
É, apesar disso, o que pensa, hoje, o senso comum, que chama fundamentalistas, obcecados pela verdade, aqueles que não aceitam o relativismo como uma verdade absoluta! E há, desde há muito, quem se aproveite dessa preguiça de procurar a verdade: Hitler tinha um ministro da "propaganda", técnica inventada nessa altura, que dizia que uma mentira suficientemente repetida se transforma numa verdade(!). Salazar ou Stálin não andavam longe. Nem os governantes do nosso tempo, que pagam a empresas de marketing para convencer os cidadãos das "verdades" que lhes convêem. E como se repetem!
É de louvar os pequeninos sucessos das investigações policiais que descobriram que há políticos corruptos. É legítimo pôr a hipótese de que a verdade esteja debaixo de toneladas de marketing, de toneladas de betão das obras com que terão encoberto o seu verdadeiro propósito: a percentagem, sob formas diversas, que lhes coube, pessoalmente, por terem tomado a decisão política de as realizar.
E, como não há direito sem força, cabe-nos, à opinião pública, fazer força para que as investigações, anos e anos de esforço, sejam feitas, para que se procure a verdade. Foi de boa fé que se decidiu fazer um aeroporto, uma linha de combóio, uma auto-estrada, um hospital privado, um empréstimo, criar um cargo público? Ou foi para um lucro pessoal ou partidário, de prestígio, de influência ou mesmo monetário? A verdade existe, mesmo que a não conheçamos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Faltam 35 dias

Dento de 35 dias, em Copenhaga, decide-se se continuamos como planeta vivo, se mudamos o rumo ao abismo que é o nosso, ou se nos deixamos morrer, "confortavelmente".
Um dos maiores poluidores do mundo é o Brasil, com a deflorestação da Amazónia, as queimadas.
Soya field. It is illegal in Brazil to destroy Brazil nut trees so  they are left standing when the forest is cleared. Many of the Brazil  nut trees die from the fires that are used to clear the forest.
Esta nogueira no meio de um campo de soja está lá porque uma lei proíbe destruir as nogueiras.
Como entre nós uma lei antiquíssima proíbe destruir os sobreiros. Imaginemos, então, que em Copenhaga se consegue proteger, por lei, o planeta TERRA.
Acontece que não temos outro, para nos mudarmos. É connosco!


sábado, 24 de outubro de 2009

Hoje às 18:00 na Praça dos Leões, no Porto

http://www.350.org/ptOs cálculos científicos dão 350 partes de CO2 por mil na atmosfera como o limiar além do qual haverá catástrofes ambientais, gente no mundo a morrer de fome com as terras secas ou inundadas. É connosco! Estamos a 386 partes por mil.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A "engenharia financeira" é um truque de ilusionismo que consiste em tirar dinheiro da cartola vazia --todos viram que estava vazia! -- e em convencer o público de que o dinheiro surgiu do nada. É praticada por engenheiros civis, como o nosso primeiro-ministro, a quem foram dados trabalhos de economista. Eles "criam", fazem "obra", e, antes que o público perceba que o dinheiro vinha afinal da dívida pública, que aumentou na exacta medida do que saíu da cartola, antes que perceba que vai pagar juros e perder crédito e que terá que a amortizar, antes que o público perceba que o dinheiro não foi criado do nada, já o espectáculo acabou e estão outros actores em cena.

Mas "ele" há públicos mais exigentes que outros. Nós, os portugueses, somos muito bondosos com os comediantes, nada exigentes. Andam-nos a vender a social-democracia há mais de trinta anos e nós fingimos que não percebemos que o produto é falso, fingimos que não sabemos que nos países onde ela existe se vive incomparavelmente melhor.

O que se passa é que o produto verdadeiro exige cidadãos atentos, muito atentos a como se gasta o seu dinheiro, "forretas" mesmo. Só assim se consegue ter transportes públicos baratos, água barata, etc.

Se até os cidadãos mais responsáveis, como os empresários (com excepções de se lhe tirar o chapéu!), acham que o Estado é uma fonte inesgotável de dinheiro, fonte onde nos podemos abastecer conforme as nossas necessidades, sem consequências nenhumas, que esperar dos menos responsáveis? Do pessoal dos partidos, por exemplo, que não vê nenhum problema em criar um emprego para a filha da prima? Um? ... se a fonte nunca seca, porque há de haver moderação?


Um dia --não creio que seja já neste Domingo :-) -- havemos de parar de deixar os nossos créditos por mãos alheias. Oxalá não seja tarde de mais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vá votar, e-leitor!

Trata-se de escolher as pessoas que nos vão representar na Assembleia da República, já que não cabemos lá todos. Temos que estar conscientes de que, quando lá estivermos representados, o nosso papel não é apenas o de defender os nossos legítimos interesses mas também e sobretudo, os de Portugal; e num tempo muito importante, um tempo perigoso.
Eduardo Lourenço compara hoje, no Público, estas eleições com as da Assembleia Constituinte, em 1975. Nessas a abstenção quase não existiu, os portugueses sabiam que era importante quem iria fazer a Constituição; escolheram a Liberdade e a defesa contra o senhor deste mundo, senhor de almas e de governos, de exércitos e de jornais, de cartazes e de tempos de antena.
Neste jogo o nosso papel é o de árbitro. Mesmo que tenhámos berrado por um partido, em campanha, ali, frente à urna, não temos camisola, temos a responsabilidade de escolher quem nos parece que irá dar um contributo útil numa Assembleia renovada; dispomos dos programas, aqui no internet, vimos as pessoas, sabemos o que fizeram e o que não fizeram. Dispomos, acima de tudo, acima da razão que nos permite resistir à propaganda, da nossa intuição: sabíamos, em 1975, que precisávamos de entrar no mercado comum europeu. Sabemos, hoje, que já lá estamos de pedra e cal, que precisamos de nos proteger, como os outros europeus, do tal senhor deste mundo, do Leviatã, como lhe chama Eduardo Lourenço, e que esse é o papel dos políticos eleitos. O nosso papel é escolher com a consciência toda. Com a intuição! E a verdadeira intuição está acima do medo, é clara e livre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tempos de mudança III


Numa estradinha do Alentejo, um autocarro cheio de políticos que se dirigiam para uma almoçarada, que precedia uma inauguração qualquer, despista-se contra um chaparro, a grande velocidade.
Mais tarde, um jornalista, remoendo se não teria sido melhor aceitar o convite dos políticos para almoçar, afinal a sua independencia era acima de qualquer suspeita, passa pelo local do acidente, a caminho da mesma inauguração. Vê o autocarro desfeito e um alentejano, debaixo do chaparro, como nas anedotas, com uma pá.
-- E os políticos, onde estão os políticos? (a reportagem, afinal, prometia).
-- Enterrei-os.
-- Enterrou-os? mas nenhum estava vivo??
-- Alguns diziam que sim... mas sabe como são os políticos!

As anedotas podem ser vistas como uma forma de arte popular, falam-nos do nosso inconsciente colectivo. O Alentejo, por ter sido parte da civilização muçulmana durante sete séculos, no tempo em que ela nos trouxe os algarismos da Índia, os livros dos gregos e também por ter comerciado com a cultura mediterrânica, em geral, é, com o Algarve (ou o que dele resta), a parte mais civilizada de Portugal. Temos um atávico respeito, de bárbaros do Norte, pelo alentejano e por isso o ridiculizamos em anedotas. Porém, hoje em dia, o Norte e o Sul do país estão integrados e somos a parte mais civilizada da Europa porque a que mais culturas integrou. Só o Brasil nos supera, que integrou asiáticos, indianos, o mundo todo! E, lá, as anedotas de portugueses cumprem o mesmo papel.

Os políticos são "um mal necessário". No cerne da civilização lusófona há uma anarquia essencial, sentida inconscientemente como aquilo para onde vamos, o limite para que a nossa civilização tende, o "Reino do Espírito Santo" de Agostinho da Silva, o quinto Império de Fernando Pessoa, uma utopia muito nossa em que cada um toma conta de todos, como de irmãos que os sente, e ainda tem tempo para se sentar à sombra da bananeira. Entretanto macaqueamos os europeus do Norte e os americanos do Norte, porque sabemos que o nosso destino é integrá-los também, a essa gente estranha que precisa de muito dinheiro, de muitos brinquedos caros e lhes sacrifica a vida. Mas é raro macaquearmos aqueles hábitos de estudo sério, de levantar cedo, de esforço continuado. Preferimos ganhar o Euromilhões... ou outra "esperteza" qualquer que traga dinheiro depressa -- como a política.
Respeitamos a "esperteza" de quem tem milhões sem nos interrogarmos como os arranjou com o ordenado de um cargo público. Somos assim.
Quando exageram, lá os apeamos, meio a contra-gosto, só porque parece mal, queremos ser bem vistos na Europa, queremos integrar a Democracia. Foi para os apear que apareceram os revolucionários marxistas, no tempo da outra senhora, quem mais lutou (e luta), paradoxalmente, pela democracia, pelas regras de chegar ao poder pelo voto, os quais deram a CDU e o Bloco de Esquerda; que apareceu a ala liberal de Sá Carneiro, que veio a dar o PPD/PSD... E foi para apearmos o antigo regime, um grupo que se chamava a si mesmo de "elite" e que estava a abusar, que apareceu o PS, partido europeu e defensor da democracia burguesa por excelência, a quem temos dado o encargo de nos governar (encargo difícil, nós somos os descendentes de um povo que havia, lá na Hispânia, que "não se governa nem se deixa governar", como dizia o escritor romano).
Chegou a hora de o apearmos.

Porque é que isso é do nosso interesse, do nosso interesse civilizacional? Não é por o PS ser um grupo de amigos, que se defendem uns aos outros como uma "máfia", quando as "espertezas" correm mal a algum; até achamos bonito que sejam amigos, até achamos graça a estes seus amigos espanhóis que acabaram com o jornal da sexta da TVI, pensando ajudar! LOL, até estamos habituados às espertezas dos governantes para lucrar com os dinheiros públicos...
O que se passa é que o caminho que propõem para Portugal é a continuação deste. E chegaram, no Mundo, os tempos de mudança. Quem nos governe terá que perceber isso, antes de tudo. Terá que perceber que vamos navegar no meio da tempestade, que o número de desempregados crescerá sem fim, que demorará mais de uma dúzia de anos anos até aparecer uma nova estrutura social, uma tão diferente da actual como a de Abraham Lincoln o era da de Luis XIV.
O sistema financeiro internacional é como um barco que bateu num rochedo e em que a água entra. Tiramo-la, afanosamente, mas sabemos que são tolos os que esperam que volte a navegar como antes e querem continuar viagem. Não ligamos aos tolos e certamente lhes não entregamos o leme. Temos que tentar chegar a terra, que construir outro barco e, então, continuar a viagem.
Importamos mais de 80% do que comemos. A dívida portuguesa ultrapassa a nossa capacidade de pagar os juros, quanto mais a de a amortizar... devemos votar em quem quer continuar a cobrir os vales férteis de auto-estradas e de prédios? Temos uns milhões de habitações a mais, podemos oferecer hospitalidade, ainda bem! ... mas -- quem nos dará crédito para continuarmos a comprar comida noutros países, no futuro?
Estamos, nesta sociedade de consumo, a esgotar os recursos naturais do planeta, incluindo as florestas virgens que já não conseguem desdobrar o CO2, o petróleo que continuamos a queimar... só faz sentido votar em quem compreenda isto.
Alguns dizem que sim... mas sabe como são os políticos!


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Limpar Portugal

um movimento para seguirmos o exemplo da Estónia, limpar o país num só dia!
O lixo acumulado em áreas ecologicamente protegidas é descomunal. Veja este filme, leitor:

Recebi isto, da secção de Santo Tirso:


Ir-se-á realizar no Pavilhão Municipal de Santo Tirso no dia 11-09-2009 pelas 21h a primeira reunião ‘grupal’ dos elementos que representam Santo Tirso no movimento LimparPortugal num só dia.

Junta-te a esta causa começando já por comparecer na reunião.
Mais informações no seguinte local:
http://limparportugal.ning.com/group/sts


Se Santo Tirso não for o teu local de residência e caso pretendas aderir ao movimento, podes sempre efectuar a tua inscrição pelo local que mais te convier.
Qualquer informação adicional pode ser tirada aqui n'o meu blogue' ou então nos seguintes sites:
http://limparportugal.ning.com/
http://www.limparportugal.org/

sábado, 18 de julho de 2009

Cidadãos debatem política (ponto net)

http://www.cidadaosdebatempolitica.net/
A situação dificil em que a nossa Democracia se encontra, com as sucessivas razões para perda de prestígio dos seus representantes eleitos, tem tido uma consequência curiosa e muito positiva: os cidadãos estão a acordar; um grupo de economistas com as suas propostas, outro com contra-propostas, a referida Constituição 2.0 e, agora, este grupo de cidadãos a desafiar os partidos a falarem de política, para variar, nesta campanha; a dizerem o que querem fazer sobre os problemas que enuncia, muito concretos.

E já vão aparecendo políticos a responder, com ideias políticas novas: o inteligentíssimo Dr Alberto João Jardim propôs que se proibisse o partido comunista: daria emprego a uns milhares de novos guardas prisionais e novíssimos pides (e bufos a ganhar algum)... e a construção das novas prisões que seriam necessárias? Seria uma óptima forma de criar empregos, de ajudar a indústria da construção civil a gastar os dinheiros públicos que tanto precisam de destino... e as empresas de transportes? O que lucrariam a levar os trabalhadores para Lisboa, para as imensas manifestações populares? Ainda não chegámos à Madeira, mas é pena!

domingo, 5 de julho de 2009

Democracia participativa

Visite este sítio: Constituição 2.0
Estamos em tempos de mudança. As leis, se mudarem com eles, poderão ajudar-nos a passar estes anos de transição com menos violência.
Por exemplo, a esmagadora maioria dos cidadãos é honesta, será o caso da esmagadora maioria dos seus representantes? Será possível que a Constituição possa prevenir o aparecimento na política de gente que acha normal enriquecer durante os mandatos? Se calhar é uma questão de imaginação e poder-se-ia poupar muito com isso.


terça-feira, 30 de junho de 2009

Saúde pública ou privada?

Houve uma comissão da Nações Unidas que procurou quais os factores de desenvolvimento primordiais para tirar um país do sub-desenvolvimento e concluiu que o primeiro deles é a saúde. Vem antes da educação. Sou um acérrimo defensor da liberdade individual e dos direitos humanos mas ... podemos ser livres sem ter saúde?
Já tivemos cuidados médicos gratuitos mas temos recuado, apesar de a nossa Constituição obrigar os governos a esse desiderato. Os partidos que nos têm governado têm "investido" nos cuidados médicos privados, a cargo de seguros incomportáveis e crescentes, de companhias de seguros sujeitas a falência. Um exemplo é o "investimento" que esta Câmara se propõe fazer de um espaço público que deveria ser isso mesmo, um espaço público, apenas com árvores ou com um parque infantil, por exemplo, vendendo-o para um Hospital Privado. O partido que acha bem vender espaços públicos a privados não é o PPD/PSD, não estamos no Porto...

No Porto a Câmara está prestes a entregar a privados o jardim do Palácio de Cristal (tem aqui a petição contra isso, leitor) mas nós, em Santo Tirso, temos um partido socialista no governo e passam-se, mais discretamente, coisas idênticas.
Nem sequer se aluga o espaço público a privados, como no Porto: vende-se!

Para reflectir sobre o absurdo de caminhar no sentido do "sistema de saúde" dos americanos (que o presidente Obama vai tentar reformular) vale a pena ver este filme. Não se trata de defender a ditadura  de Castro mas de reconhecer a importância de saúde pública e de pedir aos partidos que nos falem sobre o que pretendem fazer: continuar a incentivar os privados a dar cabo do sistema nacional de saúde ou  investir nas pessoas, criar serviços de saúde gratuitos e eficazes?

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ó meu rico S.João!
Ilumina os maiorais
Que só querem construção
E já há casas a mais!

Poderá faltar o pão?
E a saúde aos demais?
Ó meu rico S.João!
--Que se deixem de arraiais!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

HOME

HOME é o nome de um filme sobre a Terra, a nossa casa, que pode ser vista como um ser vivo, um ser vivo prestes a ser destruído por uma doença, que somos nós, o homo sapiens. Nos últimos 50 anos levámos o planeta à beira da catástrofe. Não sabemos se temos 10 anos para mudar radicalmente ou se temos menos: se a fina camada de gelo que impede os gases com efeito de estufa nas imensas estepes russas de passar à atmosfera derreter, a situação passa para lá do nosso controle. A consciência ecológica tem que ser universal, urgentemente. Veja e divulgue este filme, leitor. O filme em português não tem a mesma qualidade de em inglês ou em francês.
No princípio havia as arqueobactérias e uma delas, a cianobactéria, aprendeu a desdobrar o CO2 da atmosfera: é o nosso antepassado comum, o fundador desta família que somos com as plantas e os animais e que nunca esteve tão perto da extinção como agora... veja a história, divulgue-a, porque só se nos virmos como uma família em risco nos poderemos salvar.

(Em 19/06/2009:) Para entender como chegámos a este ponto na História, como criámos uma sociedade que consegue levar a espécie que somos, o homo sapiens, à extinção, junto com a maior parte das espécies (creio que ficarão as arqueobactérias) convém ver a adenda ao filme Zeitgeist, Zeitgeist II. São mesmo tempos de mudança; se no sentido do inferno ou do paraíso depende da consciência que formos capazes de criar, da opinião pública mundial desperta. 

sexta-feira, 29 de maio de 2009

As eleições europeias

   A abstenção tem aumentado nas últimas décadas mas, este ano, as sondagens, na Europa do Norte, sugerem que diminuirá muito. Os europeus vão votar e nós, o "rosto" da Europa, vamos votar nas eleições europeias pela primeira vez-- quer dizer, é a primeira vez que os portugueses levam a sério as eleições europeias. Com a fantástica intuição que nos caracteriza enquanto eleitores, exprimir-nos-emos com clareza por ser um momento para isso.
   A abstenção tinha a ver, aqui como na América, com o engordar distraído e decadente da sociedade de consumo; o poder nas mãos das tais das "multinacionais", nenhum voto serviria de nada, os cidadãos dormiam, de barriga cheia.  
   Este ano é diferente, acordaram. E a Democracia é o instrumento que permite evitar que as discussões se resolvam à pancada: nos momentos de indefinição todos ficam à espera dos resultados eleitorais como quem espera a decisão de um juiz.
   Revisitemos o problema: a Revolução industrial está feita, 250 anos a mudar o mundo! Precisou de criar o Estado moderno com os seus três poderes, o executivo, o legislativo e o judicial (judiciário, no Brasil), separados, Estado que respeita a liberdade religiosa mas em que a Igreja não manda, precisou de criar as bolsas de valores modernas para financiar a indústria, as vias de comunicação eficazes e aqui estamos à janela do internet, os caminhos de ferro do tempo pós-industrial. Viemos à procura da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade e, naturalmente, nesse processo, o lucro tomou as rédeas e propunha-se explorar os recursos naturais até à morte física do planeta. 
   É aqui que estamos. Tranquilamente, votando, retiramos as rédeas das mãos do lucro, que já não controla os cavalos com os freios nos dentes que nos levam para o abismo. Nos sítios mais inesperados, no Bangladesh ou no Afeganistão, a crise climática sente-se, morre-se! Acordamos para ela, estremunhados, alguns, ninguém duvida da responsabilidade que temos, de que não é tempo para andar à pancada, de que os países do mundo encontraram um adversário comum, não precisamos de extra-terrestres para nos sentirmos solidários com o planeta todo! A ameaça é real, os que querem dormir mais um bocadinho são, ou brevemente serão, minoria, vamos votar!
   O nosso Continente, há mais de 60 anos em Paz, criou uma associação de países livres e iguais em direitos, que encontram soluções para os seus problemas em comum, por consenso, que dão um exemplo ao mundo. Nestas eleições, é a minha convicção, reforçaremos o que a Europa tem de libertador, de enriquecedor, de fraterno e rejeitaremos a servidão ao poder financeiro, que perdeu o Norte, que já só pensa na sua própria sobrevivência, que vai ver os seus projectos desesperados, como o imperial tratado de Lisboa, a ser rejeitados nas urnas, tranquilamente.
   É tempo de mudança. Entre nós os grandes partidos do centro serão, justamente, porque responsabilizáveis, punidos nas urnas. É esse o meu voto!  
                 

domingo, 26 de abril de 2009

35ª mensagem, ou "post"

25 DE ABRIL


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen


É certo que nos ficou a Constituição de Abril, que nunca deveria haver medo nem censura, mas, dessa madrugada, só temos a memória, a memória de um vislumbre da nossa alma, alma de lavradores, empurrados para o mar pelo destino, pelo destino de "ser tudo".

Logo veio a manhã, e, logo nessa manhã de Abril, deixamos de "habitar a substância do tempo": no largo do Carmo, no simbólico lugar escolhido por Nun´Álvres Pereira, que hoje chegou a santo, para reinar em silêncio sobre o país que libertara à custa da guerra, renunciando à glória e ao poder para criar a Paz, o Capitão de Abril preferiu a Paz, o compromisso, à luta sangrenta pela Esperança. Foi "S. Portugal em ser"!

O poder tinha "caído na rua", coisa que sempre assustou os poderosos de todos os tempos, aqueles que se acreditam destinados a sê-lo, aqueles que, por isso, acreditam ser o povo inculto, infantil, servil, incapaz de se auto-governar, aqueles que acreditam que, como dizia Berthold Brecht, "sem o Ministro da Agricultura o trigo cresceria para baixo"; face a tal aflicção, face ao poder caído na rua, Marcelo Caetano recusou render-se ao Capitão que lho pedia. Para ele o poder seria apanhado do chão pelo Partido Comunista, para ele os Capitães eram todos vassalos ingénuos dos "Russos", para ele não havia homens livres, só havia servos e senhores.

Saberia ele que os senhores do mundo desse tempo, os americanos e os russos, já tinham decidido que Portugal estava do lado de cá da "cortina de ferro", que, na partilha do mundo que haviam feito, nunca seria uma "nova Cuba"? Saberia ele que o czar russo explicara a Álvaro Cunhal que Portugal seria uma democracia burguesa, em que o P.C. saísse da clandestinidade, sim, mas sem revolução socialista? -- Sabia.

Mas não aceitava que o Partido Comunista fosse um partido legal, como os outros, não aceitava que Portugal reconhecesse aos territórios "ultramarinos" o direito à independência total, não aceitava a democracia autêntica; temia que o poder ficasse "na rua", que nem "os russos" controlassem um povo que "habitasse a substância do tempo". Por isso exigiu render-se ao seu delfim, ao general a quem permitira publicar o livro "Portugal e o futuro" para ter a quem entregar o poder, chegada a hora.

E o Capitão que, no largo do Carmo, tinha nas mãos um povo inteiro e livre, um povo que poderia criar o socialismo que os russos falharam, aquele a que Sophia chamava "uma aristocracia para todos", o Capitão que entrou, sozinho, no quartel do Carmo, para insistir com o tirano que se rendesse, que evitasse o sangue, o Capitão Salgueiro Maia foi a alma de Portugal nessa manhã fatídica, foi o Santo que pôs a Vida acima do poder. Não se importou de perder a liberdade política -- que nunca se perde na alma -- para evitar uma morte que fosse.

E até sabia que a sua nobreza seria interpretada, pelo fascista encurralado e pelo general snob a quem iria dar o poder, como atávico servilismo -- mas ninguém morreu às mãos da nossa alma livre! Apenas às de um pide que disparou, da janela, uma rajada para a rua, mas, desses, dos autênticos servis, o que se poderia esperar?

E assim entrou a livre madrugada na manhã deste regime, há 35 anos! É a idade em que começa, no homem (para o saber biológico que hoje temos), a decadência lenta da inteligência e da força viril. E é um regime que, hoje, não passa de o poder de uma seita de políticos e funcionários burocratas corruptos, esquecidos da sua alma de portugueses, tranquilos de ser os únicos que podem ir a votos em listas sem esperança. Ontem o Presidente da República fez um apelo patético para que votemos; para que lhes demos "legitimidade democrática"!




Precisamos de uma nova madrugada, sem medo de "papões"; já não nos podem meter medo com russos nem com americanos nem com fascistas! Os papões estão à vista, no governo central e nos governos locais.

Precisamos de uma democracia natural, uma em que os candidatos a senhores, aqueles que dizem: "haja o que houver, salvem-se as hierarquias", fiquem a berrar no deserto, que não haja hierarquias para salvar!

Que o nosso destino sempre foi o de deixar, por bondade, que se sentem no governo os que gostam de lá estar e o de, por compaixão e desinteresse, os deixar esbanjar a riqueza de todos. Mas sempre soubémos que somos enganados e, em faltando a todos a riqueza, pedir-lhes-emos, tranquilamente, que se vão embora! Os funcionários que fazem leis, vão a votos, enchem os bolsos, adjudicam obras e nos atrapalham a vida pensando tomar conta de nós, pobres crianças que só pensam em futebol, as "elites" do regime, são uma despesa com um "custo/benefício" demasiado alto, uma despesa positivamente louca! Um luxo a que teremos que renunciar, mais ano menos ano!

25 de Abril, sempre!

domingo, 8 de março de 2009

A Nação e Os Cidadãos

Na Constituição de 1933 (que éramos forçados a estudar, sobretudo para ”vermos” as “vantagens” que tinha sobre a anterior, a de 1911, por exemplo a “vantagem” de haver um partido único, ou seja uma oposição silenciosa, oficialmente “inexistente”) dizia-se, se bem me lembro, que “a soberania reside em A Nação”. Essa entidade abstracta era quem tomava as decisões importantes; felizmente havia um professor de Coimbra que era casado com ela, que lhe entendia a linguagem silenciosa e a traduzia. Coisas como “Angola é nossa!”, eram desejos da nossa soberana, em linguagem acessível.
Com a actual Constituição de 1976 poder-se-ia dizer que a soberania reside em Os Cidadãos, os quais nada têm de abstracto e se exprimem votando. Mas, assim como A Nação precisava de um representante que lhe entendesse os desejos, assim Os Cidadãos precisam. E, assim como, pensando estar a ouvir A Nação, Salazar ouvia os interesses da CUF e os de outras que tais, assim os nossos queridos líderes ouvem os de outras que tais.
Na maior inocência, diga-se, ouvem quem fala mais alto.
Só que, enquanto A Nação tinha a desculpa de ser abstracta para se não conseguir fazer ouvir, nós, Os Cidadãos, não temos desculpa nenhuma para estarmos tão calados, tão abstractos.
Embora o raciocínio científico tenha feito cair em desuso o analógico, ao qual os distraídos chamam “demagógico”, o cidadão, para exercer a sua soberania, tem que recorrer a analogias para dizer aos queridos líderes que decisões tomarem por ele. Imaginemos um cidadão que vai ao super-mercado comprar a comida para toda a semana e se depara com um queijo trufado francês a 20% do seu preço, uma oportunidade única, imperdível, e o compra: no primeiro dia delicia-se, e, no resto da semana, digere a experiência. Pois esse cidadão pode, e deve, dizer aos queridos líderes que não comprem o TGV que se vão (?, que nos vamos) arrepender, apesar de ser comparticipado por fundos europeus e de ser uma verdadeira pechicha. 
E pode levar mais longe a analogia: “ouviram bem, queríamos 150 mil empregos! A 5000 euros por ano são 750 000 000 euros por ano, em 10 anos são 7,5 milhares de milhões de euros, o preço da linha Porto-Lisboa de Alta Velocidade.
Preferimos os empregos, é o nosso soberano desejo, ouviram bem!
Dir-lhe-iam que fazer a linha dá emprego... — tanto assim? Que as linhas de comboio trazem desenvolvimento económico…— mesmo as que não servem para transportar mercadorias, só passageiros lorpas que têm ao lado outro comboio por metade do preço?
E esses empregados todos, que haveriam de fazer? --Houve um cidadão, o director de Serralves, que propôs um “investimento público” interessante: recuperar o património. Até se arranjariam fundos europeus para a formação nesse campo. Mas, ao desempregado, interessa o emprego, mais que o campo escolhido pelo empregador.

O cidadão, para se fazer ouvir pelo poder central, em vez de fazer uma analogia com a sua economia familiar poderia fazê-la com a economia do seu Município. Poderia contar aos queridos líderes como, no seu Município, em vez de se construirem habitações para os pobres, as quais, por melhores que sejam, serão sempre “casas da Câmara”, bairros com um risco maior que os outros de delinquência, se tinham feito negócios com os bancos, donos de milhares de casas recebidas por execução de hipotecas, as quais casas, porque à dúzia é mais barato, tinham ficado por um óptimo preço ao Município, que assim evitara concentrar as pessoas mais pobres num bairro e contribuíra para aliviar os bancos do risco de falência.

O que o cidadão não pode é ficar calado, adormecido, como disse o comentador anónimo do último “post”. Porque, se ficar, haverá quem fale por ele! Os tais "outros que tais", que já não há monopólios, como no tempo da outra senhora, há "outros que tais"!

segunda-feira, 2 de março de 2009

Soou o alarme!

A nossa democracia tem quase 35 anos, é adulta. Há jornais ainda independentes, há leis que ainda se referem a uma Constituição democrática, pertencemos a uma União Europeia onde ainda se respeitam os direitos humanos. Mas "a verdade está no paradoxo", como dizia Fernando Pessoa.
A democracia e as eleições são invocadas para justificar a sua neutralização. O poder económico, que nada tem a ver com o voto, é quem escolhe os deputados que se hão de apresentar a votos --salvo raras excepções, as quais servem o propósito de nos deixar, adormecidos, convencidos que vivemos em democracia. A "ciência" do marketing, que se desenvolveu muito nos últimos anos, é o substituto da velha censura, caída em desuso.
A entronização de José Sócrates, num congresso/espectáculo em que nada foi discutido e em que só houve um (1) voto contra, foi a campainha de alarme que todos ouviram. Mas, assim como se costuma dizer que "o maior cego é o que não quer ver", também este alarme só foi ouvido por quem se lembra do tempo de Salazar e pelas pessoas que se esforçam, todos os dias, por resistir ao marketing da sociedade de consumo e por se manterem acordadas quando todos dormem os sonhos que lhes vendem.
O P.S., o maior partido da nossa democracia, deu-nos o espectáculo da sua neutralização enquanto partido de gente livre, capaz de pensar, de discutir, de ser responsável pela governação do país. E desde os anos 30 que não estávamos, no mundo, em tempos tão perigosos, em tempos que tanto peçam que se pense, que se aja, que se discuta, com a lucidez toda, completamente acordados! 

"Em casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". A Europa, onde encostamos a cabeça adormecida, corre o risco de se desagregar ou de se transformar num Império, democrata de nome, como era o de Napoleão, que para aqui mandou tropas (soube que vai haver uma exposição em Santo Tirso sobre a nossa resistência de guerrilha, nesse tempo-- vem a propósito!). O euro pode não resistir aos investimentos europeus a Leste e à necessidade de investimento público em toda a parte.
Nos Estados Unidos o investimento público continua a ser discutido ao cêntimo. Procura-se que seja libertador, em energias alternativas, em investigação, em saúde, em educação. Em Portugal ele é sinónimo de obras públicas, de ajuda a empresas sem futuro com a desculpa de "salvar" empregos, a bancos de grandes fortunas -- tudo às claras, os nossos "representantes" rejeitaram no Parlamento, por exemplo, a lei anti-corrupção de João Cravinho, o qual já nem esteve neste congresso. O sistema ainda está vestido de democracia, usa o nome e as eleições para ser bem aceite: mas as condições económicas deste tempo em que estamos nem nos anos 30, os que trouxeram os fascismos às democracias europeias, têm um equivalente à altura, é possível que perca a farpela e, nessa altura, é melhor continuar a dormir, para não ir preso!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Economia

Em tempos de escassez, como este e o que aí vem, a economia, a gestão dos recursos, é ainda mais importante que antes. Seja numa família, seja num município, seja num país, a primeira coisa a fazer, com o pouco ou muito dinheiro de que se disponha, é arrumar as necessidades por importância decrescente. Primeiro é preciso comer e só no fim "é preciso" comprar um Porche. Se a hierarquia das necessidades for racional, se tiver sido bem matutada, vive-se necessáriamente melhor.
Se os médicos andarem a percorrer o serviço de Urgência à procura de um aparelho de medir as tensões, perdendo tempo e ganhando stress, o qual prejudica o seu desempenho, certamente que comprar alguns aparelhos desses está à frente, na lista de prioridades, da construção de novas instalações, as quais serão óptimas e necessárias, depois! 
E, da mesma maneira, se se reduz, para poupar dinheiro, o nível de prestação de serviços da nossa Urgência e se manda tanta gente gastar gasolina a caminho de Famalicão por razões económicas, que sentido faz ir gastá-lo em obras vaidosas? 
Faça-se o mais necessário antes do que o é menos. Economia é a definição de prioridades. É claro que é mais importante o funcionamento de um serviço que a arquitectura que o serve. E, diga-se de passagem, a arquitectura que não tiver uma poética funcionalista autêntica não consegue ter beleza autêntica (vão tristes os tempos, por esse lado também!); o que não quer dizer que se esqueça a função puramente estética, a decoração até -- é só respeitar a tal coisa da hierarquia das prioridades, a economia!
Por exemplo a ideia (que se mantém!) de gastar 7,3 mil milhões de euros a fazer uma linha de comboio nova, de alta velocidade, que pouparia cerca de 20 minutos na viagem Porto/ Lisboa (a quem pagasse o bilhete caríssimo: poucos, logo risco de falência e mais despesa!). Dinheiro mal gasto que daria para tanta coisa... (e gasto a destruir centenas de hectares de árvores e campos, casas, quiçá, para fazer uma linha inútil); deixo aqui, com a devida vénia, um artigo esclarecedor e lembro que se vai de Copenhaga a Estocolmo de Alfa pendular (mais sóbrio que o nosso!) e que ninguém se lembra, nesses países ricos, de construir um TGV (se calhar são ricos porque sabem gerir os recursos, fazem da saúde pública uma prioridade, por exemplo):
Os empregos que o "Call Center" cria são necessários, há que o alojar. Também é necessário recuperar edifícios que são património arquitectónico em zonas bem centrais. E é necessário preservar as áreas verdes, não as construir. Como a função (uns cubículos com um aparelho) é simples de meter num edifício antigo, para que se constrói um novo, ainda por cima sacrificando uma área verde? 
A resposta, infelizmente, deve ser a mesma que explica o TGV: o poder político tem a quem prestar contas -- e não é à opinião pública, que está um pouco mais desperta, é certo!, é à indústria dominante no país.

Aqui se lamenta, a propósito, o desaparecimento do blog "opinão do Vítor", o qual, creio, continuará a escrever no "Entre Margens".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Uma doença perigosa

Todos nos cruzamos quotidianamente com doentes mentais sem os diagnosticar, todos somos, em parte, doentes, a saúde perfeita é um conceito abstracto, não existe. O que interessa é procurar caminhar no sentido da saúde, definida pela O.M.S. como sendo “o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de enfermidade ou invalidez”, e evitar caminhar no sentido da doença.
No caso da saúde mental, é fácil perdermos o pé da realidade e cairmos num delírio, sobretudo se a realidade for dura e todos à nossa volta nele viverem; e se esse delírio for sistematizado e for partilhado por muitos, então todos vivem "felizes" até ao dia em que a realidade se imponha. Por isso épocas como esta são necessárias, abençoadas, são épocas em que podemos “cair na real” (ou num novo delírio, claro!). Um exemplo extremo foi a Alemanha hitleriana, nascida de uma pobreza também ela extrema: se um cidadão não alinhasse no delírio sistematizado de que a raça “ariana” tinha obrigação de dominar as outras todas, então os delirantes iam-lhe tirando bens, emprego, casa e podia chegar a um campo de extremíneo; alinhar com o delírio era instinto de sobrevivência. Mas o delírio de milhões não deixa de ser delírio por serem milhões os delirantes.
Um exemplo quotidiano, banal, é a burocracia. É muito fácil a um funcionário, naturalmente preocupado com o seu lugar na carreira, tomar os papéis que preenche por trabalho útil, até indispensável à função que exerce. No seu delírio, imagina mesmo que os papéis espelham a realidade e consegue contagiar outros para a sua convicção. Lembro-me de um médico a comer laranjas em frente a um hospital do interior – há que anos! – dizendo que já tinha trabalhado muito, tinha comido cinco laranjas! Estava a brincar com um colega burocrata que costumava dizer “já dei cinco altas hoje”; esse deixava os doentes com a terapêutica com que entravam pela Urgência e depois preenchia e assinava a alta: imaginava ter trabalhado muito.
Ou imagino o processo completo, volumoso, do licenciamento daquele prédio ora destruído, “sito” numa linha de água: a imponência do volume e das assinaturas decerto ofuscava a evidência de que não deveria ser construído – e contagiou os pobres cidadãos que acreditaram nele e nele investiram capital e esforço.
Este é um tempo em que, quem quiser, pode ver a realidade. Aproveitemos! Os professores do secundário descobriram que não andavam a ensinar mas a alimentar o delírio da sua burocracia. A esta nada interessa o que aprendam, de facto, os alunos, que é a função da escola; interessam os papéis que se referem a isso, o que é bem diferente! Há, por exemplo, um curso para professores destinado a ensinar-lhes como se pode avaliar positivamente um exame em que o aluno mostrar total ignorância!
O paradoxo de tomar os números, as estatísticas, pela realidade é impressionante. A subversão da matemática, ciência exacta, posta ao serviço dos delírios, a “força” dos números usada para alienar, assusta. Como assustam as listas dos dinheiros gastos pelos poderes públicos, que os apresentam, vaidosos, sinceramente convencidos de que eles medem a enorme utilidade pública dos seus serviços. Que lhes interessa se interessava fazer aquilo, se havia outras prioridades, se era possível fazer mais barato? O que interessa aos poderosos delirantes é que se gastou muito, os números provam-no!
Mas este, repito, é um ano propício a pôr os pés no chão, a recuperar a saúde mental.
Evitemos cair no delírio de culpar a democracia, de propor a censura e o medo: eram e são democracias as sociedades mais prósperas e interessantes da História.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tempos de mudança (2)

É um tempo de destruição das velhas estruturas; vemos, desde há um ano, como aquilo que não presta vem sendo exposto para ser destruído. Compete-nos limpar o terreno de detritos enquanto desenhamos o projecto das novas estruturas; e compete-nos salvar da enxurrada aquilo que merece ser salvo.
Isto continuará a passar-se, a todos os níveis, durante mais de uma década, tal a magnitude da transformação que começou. Desde os cidadãos até à Ordem Internacional, passando pelas cidades, como Santo Tirso, este é um tempo de mudança.

Como cidadãos teremos que aprender a ser livres e responsáveis. Temos confiado, como crianças, nos nossos governantes, eles que resolvam os problemas, não temos ligado ao nosso papel de cidadãos livres e responsáveis e a necessidade de mudarmos cada dia se torna mais visível. Sem cidadãos conscientes a tendência natural dos governantes é a de se tomarem por insubstituíveis e abusarem do poder que pusemos nas mãos deles. Torna-se cada vez mais clara a necessidade de contribuirmos para o funcionamento das organizações não governamentais; há-as de toda a ordem, desde o nível local ao internacional e novas aparecerão, quando a nossa lucidez permitir que a sua razão de ser seja visível e as criemos. Aproveito aqui para saudar a Liga dos amigos do Hospital de Santo Tirso contando o que vi: dantes havia um barbeiro no Hospital da Misericórdia mas não está previsto na organização actual, não existe esse funcionário público; então vi um simpático cidadão, membro da Liga, não remunerado, que aprendeu a arte e, desde há 3 anos, barbeia doentes, a toalha pendurada no braço, o ar “profissional”; não esperou pela burocracia, barbeia!
Este espírito de ser uns pelos outros, de ser responsável, foi referido por Obama no seu discurso “inaugural”; existem muitas organizações não governamentais nos EUA e ele fez parte de algumas delas antes de ser presidente.

Como país teremos que deixar a infantilidade de pedinchar fundos europeus, que ser responsáveis por uma Europa livre, solidária no mundo. Teremos que ter a coragem de denunciar a corrupção –que tão bem conhecemos! – nos países africanos de língua portuguesa, por exemplo…

…mas, para já, este é o tempo de destruir o disparate, salvando a democracia!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Aeroporto do Porto

O Aeroporto Francisco Sá Carneiro também interessa a Santo Tirso.
A privatização da ANA, pondo as decisões nas mãos dos gestores do novo Aeroporto de Lisboa, arrisca-se a "cortar-lhe as asas".
Destinatário: Sr. Primeiro-ministro de Portugal, Sr. Eng. José Sócrates
Petição Por Uma Gestão Autónoma do Aeroporto Do Porto
O futuro do Aeroporto Francisco Sá Carneiro tem sido objecto de um importante debate em todo o Norte do País.
À Junta Metropolitana do Porto, que iniciou este debate, juntaram-se, entretanto, diversas associações empresariais com especial destaque para a AEP, a Associação Comercial do Porto, a A.I.Minho e a A.I.D.Aveiro.
A estas associaram-se, ainda, os principais autarcas do Norte, todos eles reclamando uma gestão autónoma do Aeroporto do Porto, com base em estudos técnicos, designadamente da Faculdade de Economia do Porto, que apontam esta infra-estrutura como decisiva para o futuro de uma região que, notoriamente, tem vindo a perder competitividade e qualidade de vida, quando comparada com o resto de Portugal.
A FAP – Federação Académica do Porto, não se mostra indiferente a esta questão, reconhecendo a importância e a necessidade da garantia da gestão autónoma do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a fim de promover o progresso e o desenvolvimento da região Norte.
A privatização da ANA não deve, em qualquer circunstância, entregar os aeroportos portugueses a um monopólio privado que, seguramente, faria depender o futuro do Aeroporto do Porto das decisões de gestão do novo Aeroporto de Lisboa, tal vai ser o montante de investimento que essa nova infra-estrutura irá absorver.
Nesse sentido, os abaixo-assinados reclamam, junto de Vexa., a necessidade de garantir uma gestão autónoma do Aeroporto do Porto, de forma a que ela se possa subordinar apenas à racionalidade económica e não seja nunca condicionada por factores contrários ao interesse regional.
Os Peticionários
Ver Signatários | Assinar Petição

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"Relançar a economia"

Bill Clinton, que "relançou" a economia americana para uma época de ouro, tinha um "lembrete" sempre à vista durante a campanha eleitoral e que ficou célebre: "É a economia, estúpido!" (It's the economy, stupid!).
Hoje não é preciso ler Marx para ter consciência de que a economia domina a política (de tal maneira chegou ao senso comum que o bom senso nos pede que pensemos noutras coisas que influenciem a política!). Até que haja algum milagre (ainda podemos esperá-lo dos lados do Obama), os políticos representam, nos nossos países democráticos, não os cidadãos, como os cidadãos distraídos possam pensar, mas o poder económico. 
Em certos países africanos o poder económico está nas mãos do líder político, que se representa a si mesmo, à família e aos amigos, mas, entre nós, nas nossas sociedades industrializadas, os políticos representam o poder económico da indústria dominante e é ingénuo pensar que não sejam bem pagos por essa representação no Estado. Fazem as leis, tomam as iniciativas que convêm à dita. E, desde que isso não a incomode, fazem outras coisas, coisas úteis, até, mas que podem ser vistas como simples despesas de marketing que os mantenham no seu papel de representantes úteis à indústria dominante do país, no nosso caso a da construção civil, com a qual governantes e governados identificam o progresso.
Quando Bill Clinton se recusou a bombardear Belgrado ou a fazer outra guerra qualquer, como lhe pedia a indústria dominante do seu país, a do armamento, esta tratou de o liquidar. Não precisou de lhe dar um tiro (os tiros no Kennedy ficaram-lhe caríssimos em desinformação contínua, embora a escalada no Vietname que se seguiu, com Lyndon Johnson, a tenha compensado largamente), bastou-lhe, tratando-se de um país protestante, armar-se em defensora da moral e dos bons costumes: conseguiu o desejado bombardeamento de Belgrado e, como bónus, oito anos de Bush, biliões de receita em armas e material bélico vendido ao Estado.
Entre nós a indústria dominante é a da construção civil e já é oficial que temos casas a mais, já é inevitável que os preços delas baixem, as auto-estradas estão todas feitas, começa a ser difícil inventar mais rotundas, há que actuar --à portuguesa, sem tiros, basta saber vender as soluções!
A crise financeira vem a calhar, a solução Keynesiana é obras públicas, toca a "relançar a economia", são precisos investimentos do Estado -- não é o que vai fazer o Obama? --É, mas eles não investem em obras públicas há décadas e nós não temos feito outra coisa! -- Pormenores sem importância, funciona como marketing, logo faz-se uma lei que permite às Câmaras fazer obras até cinco milhões de euros sem concurso público, a situação é urgente, não se pode perder tempo com as burocracias dos concursos.
Assim se vende um disparate a uma população crédula e se mete dinheiro nas mãos da indústria dominante, habituada a vender pelo dobro do preço de custo. Os pequenos empreiteiros, que poderiam oferecer soluções mais baratas, mais inteligentes, para uma obra, esses ficam de fora, são os do costume quem fica com as obras todas, não há concursos! Nem concorrência, é o mercado "livre", é o monopólio dos que têm "representantes" no governo.
Mas o maior disparate nem é a injustiça e o dinheiro mal gasto: é que a solução Keynesiana, nos anos 30, se baseou no fabrico de notas, o Estado pagava as obras, apareciam novas indústrias para apoiar as obras, gente com dinheiro para gastar que "relançava a economia";ora  acontece que estamos no euro, não fabricamos notas, fazemos dívidas e vamos, com elas, "salvar" uma indústria que precisa de ser drasticamente diminuída, reconvertida; as "obras" de que precisamos não são físicas, são outras. 
São saúde e educação e não consistem em edifícios novos, essa não é a prioridade dos cidadãos, muito mais importante é gastar o pouco dinheiro disponível em pagar melhor aos trabalhadores da saúde e do ensino, em contratar quem dê rendimento em vez de ficar a vê-los fugir para as clínicas e escolas privadas e deixar os novos e vistosos edifícios entregues a burocratas que não dêem a saúde e o ensino que são precisos. Esse investimento nas pessoas relançaria a economia porque elas teriam dinheiro para gastar e porque a população saudável e educada seria uma enorme mais valia. Não falando da miséria de ter que ir aos serviços privados quando se está doente e desempregado ou de passar fome para ter os filhos numa escola privada que assegure algum ensino.
Que sábia decisão a do nosso governo ao acabar com a burocracia dos concursos, como vão ficar mais transparentes as adjudicações de empreitadas, como vai ficar mais difícil aos políticos corruptos ganharem com isso! Isto é que é ter coragem de relançar a economia, de ser generoso com os dinheiros públicos!  Este é um governo que conhece as suas prioridades, a construção civil, que não teme ser mal interpretado pelo povo que quer ver "obra", um governo que tem vistas largas, que não teme o futuro! E que mesquinha a Associação dos Municípios Portugueses, que desconfia de tão generosa oferta!