terça-feira, 29 de junho de 2010

Um livro sobre vasos gregos

A Sorte traz-nos hoje à noite, pelas nove e meia, no edifício da Câmara, a presença de Maria Helena da Rocha Pereira, que recentemente recebeu o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. Jubilada da cátedra de grego clássico de Coimbra (onde um tirsense lhe sucedeu) esta Senhora é um daqueles portugueses (que há em todas as áreas do saber!) que põem Portugal no mapa da civilização contemporânea. Mas não é pelo livro sobre os vasos gregos que há em Portugal e que estudou e publicou (este em inglês, porque é contributo para o conhecimento, livro para as universidades) que aconselho o leitor a ouvi-la. É pelo seu falar a nossa língua -- com uma nitidez que decerto a luz da Grécia lhe deu. É um prazer para a inteligência ouvir ou ler o uso que faz desta ferramenta, o português, tão mal tratada, quotidianamente, na televisão, por exemplo.
Parabenizo a Câmara sem qualquer ironia!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Comunicado da Associação Amar Santo Tirso

Recebi, por e-mail, este comunicado, com pedido de publicação:



   Pessoa Colectiva de Direito Privado
   amarsantotirso@gmail.com

COMUNICADO

A  Amar Santo Tirso Associação e Movimento para Acção e Reflexão, terá instalações próprias a partir do próximo dia 1 de Julho. Trata-se de um espaço privilegiado, junto ao Largo Coronel  Batista Coelho, cuja centralidade, bem no "coração" da cidade, permitirá desenvolver uma interacção permanente com os munícipes. Este passo representa mais um sinal evidente do dinamismo desta associação, que conta já com mais de 50 associados, não obstante ter sido constituída apenas em Março do corrente ano.
As novas instalações servirão de sede para os serviços administrativos da associação, mas irão ter as portas abertas para qualquer solicitação com o objectivo, por exemplo, de apoio a eventos ligados à cultura, como exposições, debates, entre outros, pois trata-se de um espaço ao serviço da cidade e do concelho. A  " Amar  Santo Tirso "  procederá , entretanto, a um acto de inauguração, a ocorrer em data a anunciar.

Santo Tirso, 23 de Junho de 2010
A Direcção

terça-feira, 22 de junho de 2010

Caído no chão.

 A escrita de José Saramago contém uma lição para nós todos, o povo português: todos temos acesso às bibliotecas públicas, hoje todos temos acesso à Wikipédia, todos poderíamos ser mais cultos e mais instruídos.
É claro que é um privilégio nascer numa família culta mas os pais ou os avós dessas famílias foram gente sem esse privilégio, esforçaram-se, como Saramago.
Ninguém nos força a seguir os bons exemplos, como este, mas uma coisa é certa: somos responsáveis pelo nosso destino e pelo destino do nosso país.
Se os miúdos que querem aprender não souberem convencer os outros a estar, pelo menos, calados; se os trabalhadores que querem melhores salários não convencerem os colegas a sindicalizar-se (incluindo os colegas desempregados); se continuarmos a premiar com os votos os que gastam mais em "despesas correntes" que em benefícios reais para a população; se continuarmos a fingir que acreditamos que a responsabilidade pela situação de Portugal não é nossa.. se não nos tornarmos mais conscientes, o país não vai melhorar sózinho.


E é apenas justo lembrar que, "não desfazendo" nos méritos da família de Saramago nem nos do país em que nasceu, a família política do nosso Nobel da literatura foi a terra que alimentou a planta Saramago para que desse fruto (1). Fruto que caíu agora na terra e gosto de pensar que essa terra somos nós, os seus leitores, e que saberemos fazer medrar essa semente até ela dar frutos, daqui a umas dezenas de anos!
(1) O PCP, além do mérito de ter lutado para que, hoje, tenhamos democracia, teve o mérito de levar cultura a gente que a ela não teria tido acesso; foi, na clandestinidade, talvez a força cultural mais importante em Portugal.

Será preciso dizer, em letras mais pequenas, que este que escreve apenas apreciou realmente "O ano da Morte de Ricardo Reis" e não se entusiama com o barroquismo da escrita mas com o que ela diz. E também que o mesmo nunca pertenceu nem pensa vir a pertencer ao partido comunista por ser um burguês (vagamente instruído, como todos são!) visceralmente contrário a qualquer forma de violência (embora caia, por vezes, lamentavelmente, na violência verbal!). Só quando o partido comunista fizer a crítica de Stálin (esboçada por Cunhal) e se demarcar do conceito leninista de que há situações que justificam a violência poderá ter o apoio dos burgueses vagamente instruídos e apoiantes da democracia. O caminho, nesta nova era que começou, poderá já não ser o da Razão mas será o da difícil aliança entre a Razão e a Emoção: o coração. E, para o coração, o sofrimento dos homens e mulheres livres às mãos da burocracia salazarista é idêntico ao sofrimento deles às mãos da burocracia estalinista.
Dito isto, temos sido injustos com os comunistas portugueses, que sempre se comportaram dentro da Constituição e nunca foram violentos. Mas, para Lénin, os fins justificavam os meios; e, como soi dizer-se: "diz-me com quem andas e dir-te-ei quem tu és", além de não ser violento é preciso defender a ideia da não violência.  Assim como para ser a favor dos direitos humanos não basta defender essas ideias, é preciso praticá-las.

domingo, 13 de junho de 2010

  Faz hoje 779 anos que morreu, em Itália, um dos mais ilustres portugueses de todos os tempos, Fernando de Bulhões, filho de Martim de Bulhões e de Maria Teresa Taveira Azevedo. Era uma família de posses, que morava perto da Sé de Lisboa, e Fernando teve acesso ao ensino superior do tempo, tendo chegado a Doutor da Igreja e, com o seu nome religioso, António, ao título de Santo, onze meses depois da sua morte.
Paradoxalmente, as ideias que Santo António defendia e que levaram S. Francisco a convidá-lo para o seu Capítulo eram as da Igualdade. Com essas ideias os franciscanos salvaram a estrutura da Igreja romana dos fanatismos que a ameaçavam e que ela mesma tinha criado quando permitiu privilégios materiais exagerados aos seus membros.
Padroeiro dos pobres, Santo António não tem apenas o carinho dos portugueses e dos brasileiros mas de todo o mundo, que sabe, intuitivamente, que nos convém viver sem grandes desigualdades de rendimentos materiais. A novidade é que, hoje, a intuição antiga de que isso convém a todos, até aos mais ricos, é um conhecimento científico; é aquilo que, hoje, valorizamos como a verdade. Todos os indicadores sociais de felicidade estão directamente relacionados com o nível de igualdade que o país atingiu, desde os de saúde até aos de criminalidade, desde o grau de instrução até ao número de presos, da longevidade à taxa de homicídios, todos os parâmetros sociais que interessam ao nosso viver em colectividade.


Se pregasse hoje, Santo António teria à sua disposição estes dados para fazer uma apresentação científica a que os poderes democráticos se teriam que render, da mesma forma que o papa, o poder do tempo dele, se tinha rendido aos argumentos de S. Francisco.


Nas sociedades desiguais, como a nossa, as pessoas esforçam-se por não escorregar no plano inclinado das hierarquias sociais, gastam o que ganham a comprar roupa cara ou outras coisas que lhes dêem "status" e, fundamentalmente, confiam menos umas nas outras que nas sociedades mais igualitárias. Que esta palavra (igualitária) não assuste os anti-comunistas primários porque a existência da "nomenklatura" russa (antes do capitalismo) tirou a essas sociedades auto-intituladas de socialistas as vantagens da igualdade (porém é apenas justo lembrar que todos os parâmetros sociais, a começar pela saúde pública, pioraram imenso, nessas sociedades, com a conversão ao capitalismo; incluindo, paradoxalmente, o grau de liberdade da maioria da população).


Se a igualdade aparece como uma panaceia, se mesmo os mais ricos vivem melhor no Japão que nos EUA (os dois extremos), porque é que os povos, a opinião pública, os políticos se não esforçam por a criar e, em vez disso, reproduzem a desigualdade?


Suspeito que, para além da ignorância, o fenómeno seja explicável pelas mesmas razões porque um fumador bem informado continua a fumar: estamos viciados em desigualdade!


Santo António! Olha por nós, ilumina os nossos pobres políticos, os seus motoristas e os seus bolinhos de bacalhau, os seus discursos em "cerimónias" para as quais o povo não é convidado! Salva a nossa democracia, Santo António!


Junto aqui a tradução de um dos "slides" mencionados, uma citação de Gilligan J. ,"Violência: A Nossa Epidemia Mortal e as suas Causas" G.P.Putman, 1996 (em inglês):
" ...os presos com quem trabalho disseram-me, repetidamente, quando lhes perguntava porque tinham agredido alguém, que tinha sido porque "me faltou ao respeito" ou porque "faltou ao respeito à minha visita (significando "visitante"). A palavra "desrespeito" é central no vocabulário, no sistema de valores morais e na dinâmicas psíquicas destes homens cronicamente violentos de tal forma que a abreviaram numa forma de calão: "he dis'ed me"(desrespeitou-me, faltou-me ao respeito) . pg 106
Umas páginas depois Gilligan continua:-
"Ainda estou para ver um acto de violência sério que não tenha sido provocado pela experiência de se sentir envergonhado e humilhado, desrespeitado e ridicularizado e que não tenha representado uma tentativa de prevenir ou desfazer esta "perda de face"--sem ligar à gravidade da punição, mesmo que incluia a morte". p 110

Sabemos hoje que as sociedades paleolíticas eram muito igualitárias, os nossos antepassados caçadores / recolectores faziam ofertas mútuas e procuravam ser bem vistos na comunidade por serem simpáticos e não por serem fortes. Até há pouco não sabíamos que partilhávamos com os bonobos (F. B. de Waale F. Lanting, The Bonobo: The Forgoten Ape. Berkeley:University of California Press, 1997) uma secção de ADN importante na regulação dos comportamentos sociais, sexuais e parentais e que é diferente nos chimpanzés. Ou seja, a maior parte do tempo como espécie, até à descoberta da agricultura, coisa muito recente, andámos a "fazer amor e não a guerra". Guardámos desse tempo uma memória colectiva em várias civilizações: o paraíso perdido.
Talvez estejamos muito perto de o reencontrar, passados os calvários do desenvolvimento e da "conquista da natureza", talvez estejamos perto de uma relação amigável com a Terra e com os nossos parceiros humanos. Agora munidos de conhecimento científico que não tínhamos no "paraíso", estamos perto de provar da "arvore da ciência do bem e do mal", de ser os herdeiros dos heróis sofredores que nos trouxeram aqui.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Igualdade


"O Espírito da Igualdade" é o título em português de um livro em que os autores mostram as provas científicas de que a igualdade está associada com melhores índices de saúde e com todos os parâmetros de bem estar social, menor número de homicídeos, maior longevidade... e, em geral, com a felicidade.
Os países que têm mais igualdade são o Japão, a Suécia, a Finlândia...os que têm mais desigualdade de rendimentos são os EUA, a Inglaterra, Portugal!
O sentido mais importante da política, da evolução da sociedade, é no caminho de mais igualdade de rendimentos. Seria bom ter governantes que soubessem isto!